terça-feira, 21 de setembro de 2010

O efeito colateral da escandalização

Ao terceirizar os ataques a Dilma para a mídia, José Serra tornou-se coadjuvante do processo eleitoral

A escandalização do processo sucessório, na visão de quem a alimenta, deveria ter o poder de levar a disputa presidencial ao segundo turno. Até agora, nada. Tudo pode acontecer a uma semana e meia da eleição, mas as posições dos candidatos parecem mais consolidadas do que em 2006, quando a história dos “aloprados” tirou a vitória de Lula no primeiro turno. As pesquisas mais recentes continuam a apontar Dilma Rousseff na liderança folgada. Se os brasileiros fossem às urnas hoje, a petista teria mais de 56% dos votos válidos.

Há, na verdade, um efeito colateral embaraçoso. O clima de guerra na mídia, totalmente contrastante da bonomia do eleitorado nas ruas, fez de José Serra um coadjuvante na sucessão. Em tese maior beneficiado das denúncias contra o governo e gente próxima à petista, o tucano tornou-se prisioneiro da cobertura midiática. Diariamente é chamado a opinar a respeito, mas suas declarações sempre estão alguns tons abaixo do que escrevem e dizem colunistas e editoriais. Tornaram-se redundantes e dispensáveis, portanto. O assunto que mais o interessava, o da quebra de sigilo fiscal de sua filha Verônica, virou nota de pé de página, enquanto os jornalistas despejam uma cascata de novas acusações diariamente. Há coisas graves e há as insignificantes ou equivocadas, mas todas se unem em um ponto: a incapacidade de ligar diretamente a ação dos acusados à candidatura governista.

Como não há clima para se discutir mais nada, as novas propostas de Serra são jogadas ao vento. Salário mínimo de 600 reais? Reajuste de 10% aos aposentados? Ninguém quer ouvir, por mais que apelem aos desejos “populistas” de uma parcela dos eleitores.

O representante do PSDB, indicam as pesquisas, não ganhou votos com a escandalização do noticiário. Ao contrário. A verde Marina Silva avança sobre uma parcela dos indecisos e sobre parte de eleitores de Serra. No programa eleitoral, o tucano contenta-se em reproduzir as denúncias publicadas na imprensa.

Ao “terceirizar” os ataques, Serra passou a assistir o jogo da arquibancada. Parece, no fundo, que quem disputa as eleições com a candidata governista é a mídia.



Fonte: http://www.cartacapital.com.br/politica/o-efeito-colateral-da-escandalizacao

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