segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A revolta na ONU (I) e (II)

Reflexões do companheiro Fidel
Sexta, 05 Novembro 2010 01:00

Fidel Castro

Fidel Castro

Primeira parte

A reunião de terça-feira passada, 26 de outubro, da Assembléia Geral da ONU, que se supõe seja a máxima autoridade política do planeta, foi convocada com um objetivo tantas vezes repetido que já se torna familiar: "Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba".

É o projeto mais discutido, mais aprovado e nunca cumprido na história das Nações Unidas.

Todos sabemos que, caso tal imputação fosse feita contra Cuba ou contra qualquer outro país latino-americano ou caribenho e fazer ouvidos moucos disso, sobre o dito país choveriam críticas. O ato detestável que com tanta clareza e precisão é atribuído aos "Estados Unidos da América", cujo fim vem sendo exigido, é classificado pelo direito internacional de "ato de genocídio".

Já são mais de 19 as vezes que, a partir do ano 1992, a referida resolução foi aprovada pela Assembléia Geral, exigindo o fim dessa abusiva e criminosa ação. Mas, da mesma maneira em que crescia o número de vezes em que a Resolução era reiterada e aprovada, também crescia o número de países que ofereciam seu apoio e diminuía o número daqueles que se abstinham e o minúsculo grupinho que votava contra. Na última votação apenas dois a rejeitaram e três se abstiveram, cujos nomes correspondem a pequenos Estados que, na verdade, são dependências coloniais dos Estados Unidos.

Um fato a levar em conta é que no mundo aconteceram grandes mudanças depois da fundação da ONU, quando ainda não tinham acabado os combates da Segunda Guerra Mundial, que custou 50 milhões de vidas e uma enorme destruição. Muitos países que hoje constituem a maioria das Nações Unidas ainda eram colônias das potências européias, as quais se apoderaram pela força do território da maior parte do mundo e, nalguns continentes, quase de sua totalidade. Milhões de pessoas, em muitos casos, de civilizações muito mais antigas e de cultura superior, foram submetidas ao colonialismo, em razão da superioridade das armas dos agressores.

Cuba não foi uma exceção.

Neste hemisfério, o nosso país foi a última colônia da Espanha devido a suas riquezas em produtos agrícolas escassos e muito procurados naquela altura, que surgiam das mãos trabalhadoras dos camponeses livres e de milhares de escravos de origem africana. Quando o resto das colônias da Espanha já era livre, nas primeiras décadas do século XIX, esta mantinha com mão de ferro e os métodos mais despóticos sua colônia em Cuba.

Na segunda metade desse século, nossa ilha, na qual a Espanha sonhou ter um baluarte para a reconquista de suas antigas colônias na América do Sul, foi berço de um profundo sentimento nacional e patriótico. O povo cubano iniciou a batalha por sua independência quase 70 anos depois do que as outras nações irmãs da América Latina, sem outra arma que não fosse o machete, com o qual se cortava a cana-de-açúcar e o brio e a rapidez dos cavalos crioulos. Em pouco tempo, os patriotas cubanos se converteram em soldados temíveis.

Trinta anos mais tarde nosso sofrido povo estava a ponto de conseguir seus objetivos históricos na luta heróica contra uma potência européia decadente mas obstinada. O exército espanhol, apesar do enorme número de soldados que tinha, já era incapaz de manter a posse da ilha, e apenas controlava as principais áreas urbanas e estava à beira do colapso.

Então, o pujante império, que nunca ocultou sua intenção de se apoderar de Cuba, interveio naquela guerra, após ter declarado cinicamente que "o povo da ilha de Cuba é e por direito deve ser livre e independente".

Depois de concluída a guerra, negaram ao nosso país o direito de participar das negociações de paz. O governo espanhol consumou a traição a Cuba colocando-a nas mãos dos interventores.

Os Estados Unidos se apoderaram dos recursos naturais, das melhores terras, do comércio, dos bancos, dos serviços e das principais indústrias do país. Converteram-nos numa neocolônia. Durante mais de 60 anos suportamos isso, mas nos fizemos independentes e jamais deixaremos de lutar. Com esses antecedentes, os leitores de outros países compreenderão melhor as palavras do nosso chanceler Bruno Rodríguez, no dia 26 de outubro deste ano.

O debate começou às 10h da manhã.

Primeiramente, falaram cinco países em nome do Grupo dos 77, do Movimento dos Países Não-Alinhados, da União Africana, da Caricom e do Mercosul, todos eles apoiando a Resolução.

Mais tarde intervieram 14 países, entre eles dois que têm mais de um bilhão de habitantes cada um: a China e a Índia, com quase 2,5 bilhões entre ambos; outros que têm mais de cem, como a Federação da Rússia, Indonésia e o México; mais nove, com um reconhecido papel na vida internacional, a saber: Venezuela, a República Islâmica do Irã, Argélia, África do Sul, Ilhas Salomão, Zâmbia, Gâmbia, Gana e Barbados; foram 19 intervenções antes da de Bruno.

Seu discurso foi lapidário. Muitas vezes citarei parágrafos completos de suas palavras. Começou se referindo aos graves perigos de guerra que nos ameaçam e acrescentou:

"Para sobrevivermos, torna-se imprescindível um salto na consciência da Humanidade, só possível mediante a difusão de informação veraz sobre estes temas, que a maioria dos políticos oculta ou ignora, a imprensa não publica e que, para as pessoas, são tão horrorosos que parecem incríveis."

"...a política dos Estados Unidos contra Cuba não tem sustento ético ou legal algum, nem credibilidade nem apoio. Assim fica demonstrado com os mais de 180 votos nesta Assembléia Geral das Nações Unidas, que nos últimos anos exigiu o fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro."

"O rechaço da América Latina e do Caribe é enérgico e unânime. A Cúpula da Unidade, efetuada em Cancún, em fevereiro de 2010, expressou-o resolutamente. Os líderes da região comunicaram-no diretamente ao atual presidente norte-americano. Pode reafirmar-se que o repúdio expresso ao bloqueio e à Lei Helms-Burton identifica, como poucos temas, o acervo político da região."

"Visões igualmente inequívocas foram referendadas pelo Movimento dos Países Não-Alinhados, pelas Cúpulas Ibero-americanas, pelas Cúpulas da América Latina e do Caribe com a União Européia, pela União Africana, pelas Cúpulas do Grupo ACP e praticamente por qualquer conjunto de nações que se tenha pronunciado a favor do Direito Internacional e do respeito aos princípios e propósitos da Carta da ONU."

"É amplo e crescente o consenso, na sociedade norte-americana e na emigração cubana nesse país, contra o bloqueio e a favor da mudança de política para Cuba. [...] os 71% dos estadunidenses advogam a normalização das relações entre Cuba e os Estados Unidos..."

"As sanções contra Cuba continuam inalteráveis e são aplicadas com toda dureza."

"No ano 2010, o bloqueio econômico recrudesceu e o seu impacto quotidiano continua sendo visível em todos os aspectos da vida em Cuba. Ele tem consequências particularmente sérias em setores tão sensíveis para a população como a saúde e a alimentação."

A seguir, enumera uma série de medidas cruéis que afetam sensivelmente as crianças com delicados problemas de saúde, que o governo dos Estados Unidos não poderia desmentir.

Depois expressa:

"As multas dos Departamentos do Tesouro e Justiça contra entidades de seu país e da Europa, neste último ano, por transações feitas com Cuba, entre outros Estados, ultrapassam no seu conjunto os US$ 800 milhões."

Continua informando:

"A confiscação de uma transferência de mais de 107 mil euros, pertencente à companhia Cubana da Aviação e realizada por meio do Banco Popular Espanhol de Madri a Moscou, foi uma verdadeira roubalheira."

A seguir, nosso ministro das Relações Exteriores exprime algo muito importante sobre os efeitos do grosseiro crime contra a economia de Cuba, devido à tendência de mencionar cifras históricas sobre o montante em dólares do valor de um bem móvel ou imóvel, um empréstimo, uma dívida o qualquer outra coisa que possa ser medida em dólares norte-americanos, sem levar em conta o valor constantemente decrescente do dólar, nas últimas quatro décadas. Como exemplo cito um refrigerante arqui-conhecido: a Coca Cola – sem cobrar nada pela publicidade. Há 40 anos custava cinco centavos, hoje seu preço flutua em qualquer país entre 150 e 200 centavos de dólar.

Bruno exprime:

"O prejuízo econômico direto provocado ao povo cubano, em conseqüência da aplicação do bloqueio, ultrapassa, nestes cinqüenta anos, US$ 751 bilhões, no valor atual dessa moeda."

Quer dizer, não comete o erro de usar a quantia das perdas que significou o bloqueio anualmente, como se o valor dos dólares fosse igual a cada ano. Em conseqüência desta estafa mundial que significou a suspensão unilateral, por parte do presidente Nixon, do respaldo em ouro dessa moeda, a uma taxa de 36 dólares por onça Troy, unida às emissões de dólares sem limite algum, o poder de compra dessa moeda diminui extraordinariamente. O ministério das Relações Exteriores solicitou a um grupo de peritos do Ministério da Economia fazer uma avaliação e o resultado foi o prejuízo econômico provocado pelo bloqueio contra Cuba ao longo destes 50 anos, expresso no valor atual dessa moeda.

"Em 2 de setembro passado" – disse Bruno na intervenção – "o próprio presidente Obama ratificou as sanções contra Cuba, arguindo o pretenso "interesse nacional" dos Estados Unidos. Contudo, todo mundo sabe que a Casa Branca continua prestando a maior atenção aos "interesses especiais", bem financiados, de uma exígua minoria que converteu a política contra Cuba em um negócio bem lucrativo."

"Recentemente, em 19 de outubro passado, o presidente Obama qualificou, segundo várias agências de notícias, de insuficientes os processos que, segundo sua opinião, têm lugar em Cuba e condicionou qualquer novo passo à realização das mudanças internas que gostaria de ver em nosso país."

"O presidente se engana ao pensar que tem direito de se intrometer e de qualificar os processos que hoje têm lugar em Cuba. É pena que esteja tão mal informado e assessorado."

"As mudanças que hoje empreendemos são devidas à vontade dos cubanos e às decisões soberanas de nosso povo. [...] Não têm por objetivo fazer a vontade do governo dos Estados Unidos, até hoje, sempre contrário aos interesses do povo cubano."

"Para a superpotência, tudo que não leve ao estabelecimento de um regime que se subordine a seus interesses será insuficiente, mas isso não vai acontecer, pois muitas gerações de cubanos dedicaram e dedicam o melhor de suas vidas à defesa da soberania e da independência de Cuba."

"Ao contrário, este governo continua com a prática arbitrária de colocar Cuba nas espúrias listas, inclusive, na dos Estados que, pretensamente, financiam o terrorismo internacional, feita pelo Departamento de Estado para qualificar o comportamento de outras nações. Este país não tem autoridade moral para fazer tais listagens — as que deveria encabeçar — nem existe uma só razão para incluir Cuba em nenhuma delas."

"O governo norte-americano mantém também em injusta prisão os Cinco cubanos lutadores antiterroristas, há mais de doze anos, em seus cárceres, cuja causa concitou a mais ampla solidariedade da comunidade internacional."

"Cuba, que foi e é vítima do terrorismo de Estado, exige deste governo o fim da dupla moral e da impunidade de que gozam em seu território os autores confessos de atos terroristas, perpetrados ao abrigo da política anticubana desse país..."

Nesse ponto, Bruno desferiu um duro golpe na delegação dos Estados Unidos com o famoso memorando do subsecretário assistente de Estado, Lester Mallory, revelado dezenas de anos mais tarde, que mostra o nojento cinismo da política dos Estados Unidos.

"A maioria dos cubanos apóia Castro (...) Não existe uma oposição política efetiva (...) O único meio possível para fazer-lhe perder apoio interno (ao governo) é provocar o descontentamento e o desânimo, mediante a insatisfação econômica e a penúria (...) É preciso utilizar imediatamente todos os meios possíveis para enfraquecer a vida econômica (...) negando a Cuba dinheiro e fornecimentos, com o fim de reduzir os salários nominais e reais, visando provocar fome, desespero e a derrubada do governo."

"Apesar de a perseguição econômica constituir o obstáculo principal para o desenvolvimento do país e para a elevação do nível de vida do povo, Cuba mostra resultados incontestáveis, que são de referência mundial, na eliminação da pobreza e da fome, na saúde e na educação..."

"Cuba pôde declarar aqui, há umas semanas, um elevado e excepcional cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Estes resultados conseguidos por Cuba ainda são uma utopia para boa parte dos habitantes do planeta."

"Cuba nunca deixará de denunciar o bloqueio e de exigir o direito legítimo de seu povo de viver e trabalhar em prol de seu desenvolvimento socioeconômico em pé de igualdade, cooperando com as demais nações, sem bloqueio econômico, nem pressões externas."

"Cuba agradece à comunidade internacional a firme solidariedade ao nosso povo, certa de que algum dia existirá justiça e não será mais necessária esta resolução."

"Muito obrigado".

Disse para concluir a sua primeira intervenção.

Continuará amanhã.

Fidel Castro Ruz

31 de outubro de 2010

17h13



Segunda e última parte

QUANDO Bruno terminou sua intervenção quase no meio-dia de 26 de outubro passado, deu-se, como é regra, a explicação de voto, antes de o Projeto ser submetido à votação.

Primeiramente, falou o embaixador dos Estados Unidos, Ronald Godard, assessor principal da seção de Assuntos do hemisfério Ocidental, chefe da delegação de seu país. Suas inusitadas palavras tornam desnecessária a análise para demonstrar que as denúncias do ministro das Relações Exteriores de Cuba eram bem justas. Bastam suas afirmações para saber o cinismo da política desse país.

"...Os Estados Unidos […] estão firmemente engajados com o apoio à decisão do povo cubano de determinar livremente o futuro de seu país."

"...Os Estados Unidos […] têm o direito soberano de decidir suas relações econômicas com outro país. As relações econômicas dos Estados Unidos com Cuba são um assunto bilateral […] que visam a criar maior abertura em Cuba e maior respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais."

"Devemos levar isso em conta num debate eivado de argumentos retóricos do passado e focalizado em diferenças táticas, num debate que não faz nada para ajudar o povo cubano."

"Minha delegação lamenta que a delegação de Cuba continue, ano após ano, qualificando de maneira imprópria e incorreta as restrições comerciais a Cuba como um ato de genocídio. […] Os Estados Unidos não impõem restrição alguma à ajuda humanitária a Cuba..."

"Em 2009, os Estados Unidos […] autorizaram US$237 milhões em assistência humanitária privada, à maneira de presente, com alimentos e outros produtos essenciais, doações humanitárias não agrícolas e doações médicas."

Em abril de 2009, o presidente Obama salientou que ‘os Estados Unidos procuram um novo início com Cuba’, mas que ‘é preciso percorrer um caminho mais longo para ultrapassar décadas de desconfiança’. […] Iniciamos conversações para reatar o serviço postal direto entre os Estados Unidos e Cuba e incrementamos os intercâmbios artísticos e culturais..."

"O presidente Obama disse publicamente que a libertação dos presos políticos e as reformas econômicas são positivas para o povo cubano. Os Estados Unidos esperam ver em breve que tais promessas foram cumpridas, bem como a maior abertura por parte do governo cubano, como mostra de sua decisão de se relacionar construtivamente com seu próprio povo. […] Os Estados Unidos consideram que não se conseguirá plenamente uma nova era nas relações Estados Unidos-Cuba até o povo cubano desfrutar das liberdades políticas e econômicas internacionalmente reconhecidas, que este órgão tanto fez para defendê-las noutros países do mundo."

"Minha delegação votará contra esta resolução. Os Estados Unidos consideram que é hora de que este órgão junte seus esforços para apoiar o povo cubano na sua luta para decidir seu próprio futuro e ir além dos gestos retóricos que esta resolução representa.

"Obrigado, senhor presidente."

A seguir, a chefa da delegação da Nicarágua, cujo povo foi vítima da guerra suja de Ronald Reagan que tanto sangue custou, explicou sua intenção de voto. Suas palavras foram contundentes.

Realizou-se a votação e 187 países votaram a favor da Resolução; dois contra (Estados Unidos e Israel, seu forte aliado nas ações de genocídio), e três abstenções (Ilhas Marshall, Micronésia e Palau). Nenhum país dos 192 membros da ONU deixou de participar.

Após concluir esta, a representação da Bélgica, em nome da União Europeia, aliada dos Estados Unidos, pediu para as delegações que desejavam explicar seu voto.

Depois discursaram 16 países com trajetória destacada na política internacional, que explicaram sua votação a favor da Resolução. Eis a ordem: Uruguai, Bolívia, Angola, Mianmar, Suriname, Belarus, São Cristóvão e Névis, Laos, Tanzânia, Líbia, Síria, Sudão, Vietnã, Nigéria, São Vicente e Granadinas e a República Democrática Popular da Coreia.

Gostaria salientar que muitos países se abstiveram de discursar a pedido de nossa delegação, a fim de não alongar o processo de votação em detrimento do melhor horário para a divulgação do debate, e o esforço esgotador que significava a participação de um maior número de oradores. Apesar disso, 37 delegações falaram em termos claros e precisos a favor do justo Projeto que, pela décimo nona vez era aprovado pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Esta vez o debate sobre o delicado e importante tema foi mais extenso e enérgico.

Às 16h17, foi proferida a contestação de Cuba, através do ministro das Relações Exteriores de nosso país.

Suas palavras essenciais, apesar de todo o texto ter sido importante, foram:

"Senhor presidente:

"Agradeço muito as palavras dos treze oradores e das delegações presentes nesta imprevista sessão vespertina.

"A respeito das palavras expressas pelos Estados Unidos e pela União Europeia:

"Esta é a décimo nona ocasião em que a delegação dos Estados Unidos repete o mesmo argumento."

"O bloqueio é um ato de guerra econômica e um ato de genocídio."

"Será que o Departamento de Estado não fez a tarefa, não analisou o assunto?"

"No ano passado, li aqui os artigos das Convenções correspondentes..."

"Hoje li aqui o famoso Memorando do sr. Mallory."

"Não são ‘argumentos ideológicos’ do passado. O bloqueio é um velho iceberg que sobreviveu à Guerra Fria. O assunto não é a retórica, mas o ato de agressão a Cuba."

"O propósito dos Estados Unidos não é ajudar nem apoiar o povo cubano. Sabe-se que o bloqueio provoca carências e sofrimentos. Não provoca morte, porque a Revolução cubana o impede. Como compreender que punam as crianças cubanas, como foi exposto aqui? Se quisessem ajudar ou apoiar o povo cubano, a única coisa que fariam é pôr imediatamente fim ao bloqueio."

Por que impedem os norte-americanos de visitarem Cuba e de receberem informação de primeira mão? Por que restringem os chamados contatos ‘povo a povo’?"

"Os pretextos para o bloqueio foram mudando. Primeiramente, foi o fato de pertencer pretensamente ao eixo sino-soviético, depois, a chamada exportação da Revolução para a América Latina, mais tarde, a presença de tropas cubanas na África para ajudar a derrotar o apartheid, a preservar a independência de Angola e alcançar a da Namíbia."

"Depois, a manipulação a respeito dos direitos humanos. Contudo, o bloqueio é uma violação brutal dos direitos humanos dos cubanos."

"Estamos dispostos a debater sobre a violação dos direitos humanos. Podemos começar pelo campo de concentração de Guantánamo, onde se pratica a tortura e não existe o habeas corpus. É o reino das ‘comissões militares’, fora do Estado de Direito. Por acaso a delegação norte-americana pode explicar o que aconteceu nos campos de Abu Ghraib, Bagram e Nama?"

"Foram indiciados os responsáveis? Foram processados os que autorizaram nos governos europeus os cárceres secretos na Europa e os voos secretos da CIA com pessoas sequestradas? Pode o representante da União Europeia responder a isso?"

"Podemos falar da Wikileaks. Por que não contam alguma coisa a respeito das atrocidades que aparecem nos 75 mil documentos sobre os crimes no Afeganistão e os 400 mil sobre o Iraque?"

"As mudanças em Cuba são assunto dos cubanos. Vamos mudar tudo aquilo que deva ser mudado para o bem dos cubanos, mas não pediremos opinião ao governo dos Estados Unidos. Escolhemos livremente o nosso destino. Foi para isso que fizemos uma Revolução. Haverá mudanças soberanas, não ‘gestos’. Sabemos que para os Estados Unidos a única solução seria instaurar em Cuba um governo pró-ianque. Mas isso não vai acontecer."

"Desejam os Estados Unidos cooperação entre nossas universidades? Então, eliminem as restrições aos intercâmbios acadêmicos, estudantis, científicos e culturais e permitam assinar acordos entre essas instituições."

"Desejam cooperação no combate ao narcotráfico, ao terrorismo e ao tráfico humano, nos desastres naturais, no correio postal? Então que respondam, quando menos, às propostas que apresentamos há mais de um ano, sem condição alguma."

"Um alto funcionário da Usaid confirmou ontem ao jornalista Tracey Eaton que, no último período, enviaram US$15,6 milhões a (cito) ‘indivíduos no território de Cuba’. É assim que chamam seus mercenários."

"As transmissões ilegais de rádio e televisão continuam."

"Os Cinco cubanos presos nos EUA permanecem cumprindo injustamente prisão. Há pouco, Gerardo Hernández Nordelo foi submetido, sem razão alguma, a confinamento na solitária e lhe foi denegado atendimento médico."

"Terroristas internacionais confessos como Orlando Bosch e Posada Carriles andam à solta em Miami e, inclusive, fazem ali atividade política."

"O bloqueio é abusivamente extraterritorial e prejudica todos os aqui presentes. Não é um ato bilateral."

"Senhor presidente:

"Quanto às palavras expressas sobre a União Europeia, não tenho muita coisa que acrescentar."

"Não lhe reconhecemos autoridade moral nem política alguma para criticar em matéria de direitos humanos."

"Seria melhor que atendesse à brutal política que aplica contra os imigrantes, a deportação de minorias, a violenta repressão contra os manifestantes e a crescente exclusão social de seus desempregados e setores de mais baixa renda."

"O Parlamento Europeu, com a maior desfaçatez e de maneira infame, dedica-se a remumerar os agentes do governo dos Estados Unidos em Cuba."

"Contudo, a União Europeia sonha se acredita que vai normalizar as relações com Cuba existindo a chamada Posição Comum."

"Muito obrigado."

Todos estávamos à espera da resposta dos Estados Unidos à contestação de Bruno. O embaixador e a delegação — que não abandonaram a sala, em sinal de rejeição — resistiram ao bombardeio de argumentos irrebatíveis. A contestação de Cuba deixou-os pasmados. Tive a sensação de que iam se esvaindo aos poucos, até sumirem do palco.

Durante 50 anos de bloqueio, a superpotência não conseguiu nem conseguirá derrotar a Revolução Cubana. Não me dediquei ao exercício de escrutinar os votos a favor ou contra a "Resolução". Constatei, no entanto, o calor e a convicção dos que se pronunciaram contra a injusta e arbitrária medida. É um erro acreditar que tal medida pode se manter indefinidamente. Foi uma revolta. Os povos estão já fartos de agressões, pilhagem, abusos e enganos.

Nunca antes as delegações expressaram com mais veemência seu protesto contra a caçada que implica o menosprezo pela justa condenação da comunidade mundial contra um ato de genocídio que se repete ano após ano. Estão cientes de que o mais sério é o saque sistemático de suas reservas naturais imposto à maioria dos povos do planeta, a crescente escassez de alimentos, a depredação do meio ambiente, o número crescente de guerras de genocídio contra outros povos, apoiadas em bases militares situadas em mais de 75 países, e o crescente perigo de uma conflagração suicida para todos os povos do mundo.

A ONU não pode existir sem a presença dos povos que vêm exigindo o fim do bloqueio. Essa instituição, surgida quando a imensa maioria de nós nem sequer era independente, para quê serve sem nós? Qual o nosso direito, se nem sequer podemos exigir o fim do bloqueio imposto contra um pequeno país? De uma maneira ou outra, fomos subordinados aos interesses dos Estados Unidos e da OTAN, organização militar bélica que despende mais de um trilhão de dólares a cada ano em guerras e armas, que seriam suficientes demais para dar o necessário a todos os povos do mundo.

Muitos países do Terceiro Mundo são obrigados a encontrar soluções, independentemente do que aconteça aos outros. É como andar sobre uma esteira que funciona na contramão à maior velocidade.

Faz falta uma ONU verdadeiramente democrática e não um feudo imperial, onde a imensa maioria dos povos não importa nada. A ONU, fundada antes do fim da Segunda Guerra Mundial, está já esgotada. Não permitamos que nos imponha o ridículo papel de nos reunirmos mais uma vez daqui a 12 meses para zombar de nós. Façamos com que nossa exigência seja escutada e salvemos a vida de nossa espécie antes de que seja muito tarde.

Fidel Castro Ruz

1º de novembro de 2010

17h53





Fonte: http://www.diarioliberdade.org/index.php?option=com_content&view=article&id=8377:a-revolta-na-onu-i-e-ii&catid=263:reflexoes-do-companheiro-fidel&Itemid=21

Fidel acusa revista dos EUA de mal-interpretar declaração sobre socialismo

Cuba - Batalha de ideias
Sexta, 10 Setembro 2010 01:00

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Opera Mundi - O ex-presidente de Cuba Fidel Castro disse nesta sexta-feira (10/10) que foi mal interpretado pelo jornalista Jeffrey Goldberg, da revista norte-americana , que afirmou que o cubano dissera que o modelo econômico da ilha "não funciona mais".

Segundo Fidel, o que ele quis dizer é que o modelo capitalista não serve para os norte-americanos, nem para qualquer outro lugar do mundo e não questionar a eficácia do modelo cubano, como foi publicado na revista norte-americana.

Para ele, ao ser questionado se o modelo cubano era algo que ainda valia a pena ser exportado para outros países estava implícita a ideia de exportação do modelo de revolução. Sendo assim, o ex-presidente diz ter respondido a questão sem qualquer tipo de preocupação, o que levou Goldberg ao interpretar sua frase "ao pé da letra" e de maneira equivocada.

"A verdade é que minha resposta significava exatamente o contrário. Minha idéia, como todos sabem, é que o sistema capitalista já não serve nem para os Estados Unidos nem para o mundo. Sendo assim, como um sistema semelhante poderia servir para um país socialista como Cuba", esclareceu durante a apresentação de seu novo livro na Universidade de Havana.

Sionismo

Já em relação às suas declarações sobre os conflitos no Oriente Médio, Fidel disse que chegou a ser considerado injustamente um sionista por amigos árabes após condenar o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, por negar o Holocausto.

"Sempre condenei o Holocausto e em minhas reflexões expus essa posição com toda a clareza. Nunca fui inimigo do povo hebreu, sempre admirei sua capacidade de resistir durante dois mil anos as perseguições, Já os muçulmanos, durante mais de 12 séculos foram atacados e perseguidos pelos europeus cristãos, devido as suas crenças. A história deve ser admitida e recordada tal como aconteceu, com suas trágicas realidades e suas guerras ferozes", disse.

Durante o discurso, o ex-presidente fez questão de dizer que continua considerando Goldberg "um grande jornalista, capaz de expor com maestria seus pontos de vista". Porém, para ele, a má interpretação de suas afirmações evidencia que o jornalista norte-americano "transferiu e interpretou" suas frases ditas durante a entrevista em Havana.



Fonte: http://www.diarioliberdade.org/index.php?option=com_content&view=article&id=6529:fidel-acusa-revista-dos-eua-de-mal-interpretar-declaracao-sobre-socialismo-&catid=291:batalha-de-ideias&Itemid=193

Serra abraça o Tea Party: o cenário do segundo turno

Texto publicado na fonte dia 21/10/2010


Subestimada durante meses, por fugir inteiramente à lógica das disputas políticas clássicas (e do que se esperaria de alguém com o passado do candidato), a trajetória do candidato tucano inspirou-se no Tea Party, a ultra-direita norte-americana que reemergiu com enorme força, em resposta à eleição de Barack Obama – e que tem como ícone Sarah Palin… Seu perfil não se confunde nem com o da direita clássica (que defendia com sinceridade as ideias conservadoras), nem com o do neoliberalismo (que postulava como valor máximo a supremacia dos mercados). O artigo é de Antonio Martins.

Artigo publicado originalmente no blog Outras Palavras

Como Serra-2010 reproduz, no Brasil, a irracionalidade e a mobilização de ressentimentos que caracteriza o Tea Party, nos EUA. Por que a guinada de Dilma no debate da Band era indispensável para a busca da vitória.

I. O momento da guinada
Surpreendente, a candidata que lidera as intenções de voto abriu sua participação escancarando a “campanha de calúnias e mentiras” lançada contra si mesma. Tomou a iniciativa de introduzir o tema do aborto – principal peça usada pelos adversários para fustigá-la. Ousou referir-se à esposa de seu oponente, apontando-a como parte dos ataques (e não foi contestada…). Depois, partiu para o território mais desejado: as privatizações, ausentes da campanha até agora, foram tema de três perguntas em sequência, e certamente polarizarão as discussões, daqui para a frente.

Pouco traquejada em debates televisivos, Dilma Roussef teve momentos de nervosismo e lapsos, na noite do domingo (10/10), primeiro confronto com José Serra após o primeiro turno. Mas ao final, havia alcançado dois objetivos. O mais visível foi retomar a iniciativa e voltar a pautar a disputa presidencial, depois de quase um mês apenas “segurando o resultado” e da frustração por não liquidar a disputa em 3 de outubro. Menos evidente, porém ainda mais importante, foi ter exposto a face pouco convencional – e por isso surpreendente e perigosa – da “nova” direita que a candidatura de José Serra articula. A frase que sintetiza esta descoberta ficará marcada. “Vocês estão introduzindo ódio na vida brasileira”.

A reação de Dilma respondeu a uma emergência. Estacionado por meses no patamar de 25% dos votos, incapaz de despertar entusiasmo ou simpatia durante toda a campanha, José Serra mostrou que não estava morto a partir de meados de setembro. Os ataques subterrâneos que lançou contra a candidata petista foram incapazes de lhe transferir votos. Mas provocaram o segundo turno, porque um grande contingente de eleitores atingidos refugiou-se em Marina (leia também nossa análise análise sobre 3/10).

Embora tenha conquistado menos de 1/3 das preferências dos eleitores, o candidato do PSDB viu-se, de um momento para outro, em condições reais de se tornar presidente. Tal possibilidade foi demonstrada pela primeira pesquisa de intenção de votos para o segundo turno, do Datafolha. Em 7 e 8 de outubro, menos de uma semana após a primeira disputa, Serra avançara pouco: tinha 41% das intenções de voto, contra 40% na sondagem anterior. Mas Dilma caíra de 52% para 48%. A diferença estreitara-se cincos pontos – reduzindo-se a apenas sete. Para entender como tal reviravolta foi possível, é preciso examinar a fundo, a à luz dos novos fatos, as características da campanha de Serra.

II. Uma estratégia de despolitização radical
Subestimada durante meses, por fugir inteiramente à lógica das disputas políticas clássicas (e do que se esperaria de alguém com o passado do candidato), a trajetória do candidato tucano começa agora a fazer sentido. Inspira-se no Tea Party, a ultra-direita norte-americana que reemergiu com enorme força, em resposta à eleição de Barack Obama – e que tem como ícone Sarah Palin… Seu perfil não se confunde nem com o da direita clássica (que defendia com sinceridade as ideias conservadoras), nem com o do neoliberalismo (que postulava como valor máximo a supremacia dos mercados).

Corresponde a uma fase de impasse do capitalismo ocidental. Depois de verem seu projeto de sociedade questionado, e de o terem reciclado parcialmente nas décadas anteriores, as velhas elites parecem, em todo o mundo, incapazes de dar um novo passo propositivo adiante. Sua associação orgânica com o conservadorismo foi abandonada, na sequência a 1968; sua crença na “mão invisível”, que substituiu a antiga aliança a partir do fim dos anos 1970, acabou destroçada pela crise pós-2008; as periferias batem à porta – tanto as globais, quanto as metropolitanas. Resta resistir a elas: e como não é possível fazê-lo por meio de um projeto articulado, convocam-se os medos e ressentimentos: o irracional.

É uma aposta momentaneamente forte, porque as ideias de ampliação da democracia e transformação social rearticularam-se há muito pouco (na virada do século) e não puderam ainda fincar raízes no imaginário popular, nem formular conceitos sólidos. Lula, Obama ou Evo Morales; o Fórum Social Mundial, a sociedade civil global, o desejo de rever as relações entre o ser humano e a natureza; a cultura das periferias, a aparição em cena dos indígenas e negros, as novas classes médias; a blogosfera, o compartilhamento de cultura e conhecimento, a colaboração como valor decisivo para produzir – tudo isso são todos fenômenos contemporâneos. Não têm o peso da experiência, dos erros, dos recursos materiais e financeiros, da influência geopolítica que caracterizava a tradição de esquerda anterior – especialmente a social-democracia e o socialismo real.

Sem uma alternativa para contrapor a estas inovações que aspiram a construir futuro, a direita-Tea Party tenta despejar sobre elas os preconceitos do passado. Sua estratégia é evitar o debate político e, sobretudo, o choque entre projetos. Suas propostas são risíveis: nos EUA, insiste-se em manter duas guerras, ampliar os cortes de impostos decretados por Bush e, ainda assim, reduzir o déficit público. Seu método é substituir o debate racional pela mobilização de rancores e recalques, pelas denúncias caluniosas e não-assumidas, pelo ataque implacável a certas ideias e personalidades, pela desinformação deliberada e generalizada.

Seu poder não pode ser desprezado – especialmente em sociedades nas quais o acesso médio dos cidadãos à informação ainda é reduzido. Nos EUA, pesquisa recente mostrou que apenas um terço dos cidadãos sabe que Barack Obama é cristão; 20% pensam que ele é muçulmano; e o percentual dos que estão mal-infomados cresceu acentuadamente desde a posse do presidente. Além disso, boa parte da sociedade crê sinceramente que a crise financeira é responsabilidade direta de Obama, não das políticas de seus antecessores…

A candidatura Serra repete de modo impressionante, em seus aspectos centrais, este padrão. O postulante jamais apresentou programa — nem à Justiça Eleitoral (1), nem, principalmente, aos eleitores. O sentido geral das propostas de Dilma e Marina é compreensível e razoavelmente conhecido: pode-se aderir a elas, deplorá-las, apoiá-las em parte, estabelecer diálogos. O presidenciável do PSDB apresenta, enquanto isso, uma coleção de promessas incoerentes ao longo do tempo e incompatíveis entre si.

Ele já foi contra e a favor da renda cidadã e do programa habitacional do governo. Ele diz que o Estado brasileiro tem uma dívida crescente (o que é falso…) e ainda assim propõe cortar impostos dos ricos e, ao mesmo tempo, ampliar os benefícios pagos à maioria (contrariando toda a sua prática anterior). Ele tenta sepultar debates incômodos com rompantes repentinos, cheios de bazófia e incompatíveis com seu arco de alianças (em 12/10, dois dias depois de Dilma introduzir na campanha as privatizações, prometeu reestatizar empresas…). A velha mídia jamais questiona estas incongruências. Mergulhada ela própria em crise, talvez deposite suas últimas esperanças numa contra-utopia orwelliana, num descolamento radical entre o discurso político e a realidade, em que a mediação jornalística assumiria por completo caráter de ficção – e seria recompensada por isso…

III. Desconstruir a adversária
Como lhe falta um programa coerente, a direita-Tea Party apela para a desconstrução das candidaturas que vê como inimigas. Nos EUA, contra todas as evidências e racionalidade, Barack Obama é apontado como um marxista e traidor da pátria – de nada lhe servindo, aliás, manter um orçamento militar superior ao de George W. Bush… No Brasil, o alvo é Dilma. A “nova” direita não ousa atacar nem a figura de Lula, nem o lulismo. Além de temer a popularidade do presidente, não tem projeto a contrapor. Por isso, sua preocupação central não é, sequer, destacar as possíveis qualidades de Serra – mas transformá-lo, por meio da eliminação política de sua adversária, numa espécie de candidato único.

A fase intensa da campanha para desconstruir Dilma começou no final de agosto e desdobrou-se em duas fases. Na primeira, o protagonismo foi do Jornal Nacional e de quatro publicações impressas que esqueceram suas rivalidades históricas para formar uma espécie de Santa Aliança: O Globo, Veja, Folha e Estado de S.Paulo.

Nesta fase, o método consistiu em bombardear a opinião pública com dois “escândalos”: o vazamento do sigilo bancário de Verônica Serra, do qual Dilma Roussef foi – sabe-se agora com certeza – injustamente acusada; e a agência de lobby mantida pelo filho de Erenice Guerra, que não obteve nenhum favorecimento real, embora usasse o parentesco com a mãe poderosa para impressionar clientes. O primeiro caso era uma ficção; o segundo, uma irrelevância. Mas ambos monopolizaram, por 30 dias, as manchetes dos três jornais de maior circulação do país; da revista semanal mais conhecida; e do noticiário de maior audiência na TV. Para atestar o caráter eleitoreiro das “denúncias”, basta lembrar que foram imediatamente esquecidas, ao cumprirem seu papel na campanha. Não visavam investigar a fundo um assunto importante – apenas iniciar atacar uma candidatura, para favorecer outra.

Dilma resistiu ao ataque. Mas nas três semanas que antecederam as urnas, a ofensiva midiática foi complementada por outra: a mobilização das bases conservadoras. Nos EUA, ela é uma caracteística da Tea Party: aproveitando-se da frustração inicial das expectativas geradas por Obama, a direita formou centenas de comitês em todo o país e promoveu ao menos duas grandes marchas em Washington. No Brasil, onde não há nada que se compare a esta força, recorreu-se à difusão de denúncias apócrifas por meio da internet – um espaço onde o PT e seus aliados desperdiçaram muitas oportunidades e ignoraram a blogosfera potencialmente aliada.

A campanha de Serra articulou o lançamento incessante de boatos anônimos. Mobilizou a classe média conservadora e ressentida, numa rede informal muito capilarizada. Imitando uma vez mais o exemplo norte-americano, apoiou-se (sob as vistas grossas da CNBB) no poder crescente que o fundamentalismo está conquistando no catolicismo institucional e em algumas seitas evangélicas.

Uma visita ao site sejaditaverdade, ou a leitura de cartaz, afixado diante de muitas igrejas, no dia da eleição (na foto, em Porto Alegre), dão uma pequena ideia do que se destilou. Segundo a montanha de spams políticos, a candidata teria participado de diversos assassinatos. Sua postulação visaria, fundamentalmente, aprovar a disseminação do aborto, o casamento gay e o ataque do Estado às Igrejas. Enfrentaria processo de uma ex-amante. Lançaria blasfêmias contra Cristo (“nem ele impede minha vitória”). Posaria com armas. Estaria impedida de entrar nos Estados Unidos, por atos terroristas. Teria mobilizado fabricantes de chips chineses para fraudar as urnas eletrônicas brasileiras. Sua candidatura estaria a ponto de ser impugnada pelo “ficha limpa”. Seu vice, Michel Temer, frequentaria seitas satanistas em Curitiba. Etc. Etc. Etc…

O jornalista Leonardo Sakamoto explicou, em seu blog como estas alegações inteiramente inconsistentes acabam adquirindo força, em conjunto. Disparadas às dezenas de milhões, cada uma delas acaba atingindo um público que se sensibiliza pelo tema em questão e acredita no argumento. Os integrantes deste grupo passam a reproduzir a “denúncia”, acrescentando a ela, agora, o peso de sua reputação e influência pessoal.

A montagem desta rede de boatos foi a função a que se dedicou o norte-americano de origem indiana Ravi Singh, sócio da transnacional de marketing político ElectionMall – que prestou consultoria por meses à campanha de Serra (2). Em 2007, diante do sucesso de Obama na internet, o site progressista norte-americano Mother Jones entrevistou Michael Cornfield, vice-presidente da empresa. Indagado sobre a possibilidade de a direita servir-se da internet no futuro, ele a considerou inevitável. E frisou: “Há mais de uma maneira de usar a web. Muito mais que uma maneira”…

No exato momento em que a campanha de Serra mobilizava todas as suas energias, a de Lula e Dilma descansava. O movimento fazia sentido, se visto pela lógica das disputas eleitorais travadas até então. Num comício em Curitiba, a uma semana do primeiro turno, o presidente recomendou a seus apoiadores “segurar o jogo”. “Estamos ganhando de 2 x 0 e faltam dez minutos para terminar a partida. O adversário está nos chutando na canela e no peito e o juiz não apita falta. Querem explusar alguém do nosso lado. Vamos fazer como o Parreira, quando técnico do Corínthians, e prender a bola. Enquanto ela estiver nos nossos pés, o outro time não faz gol”.

Comemorara cedo demais a resistência de Dilma aos ataques midiáticos. Não se dera conta de que, em articulação com a boataria apócrifa, eles haviam constituído um ataque em pinça poderoso. Milhões de eleitores, que conheciam a candidata superficialmente, eram atingidos agora tanto pelo Jornal Nacional quanto por mensagens recebidas de pessoas próximas e confiáveis.

Um excelente texto publicado por Weden no site do Luís Nassif sintetizou o cenário. Além de provocar a segundo turno, a artilharia cerrada disparada durante semanas pela mídia e pela central de boatos apócrifos estava começando a desconstruir politicamente a candidata. Expressão destacada do lulismo, responsável pelo planejamento e articulação política de seu segundo governo, ela estava sendo sendo reduzida a uma escolha errada do presidente.

“Reconheço que nunca houve um governo tão bom para nós”, mas “esta mulher é um perigo para o país” foi o depoimento emblemático colhido por Weden junto a um taxista – que estava disposto a votar em Dilma até as vésperas do primeiro turno, mas migrou para Marina e tendia, naquele momento (7/10) a Serra. Embora ainda limitado (daí Dilma manter-se na dianteira), o movimento alastrava-se rapidamente. Weden abordou com realismo seu sentido potencial: “A candidata petista está perdendo o ‘efeito continuidade’ que conseguiu representar até semanas atrás. Se Dilma ficar na metade dos votos governistas, perde a eleição”.

IV. Por onde corre a repolitização
Como pode uma candidata repolitizar uma campanha, quando setores crescentes do eleitorado questionam sua própria legitimidade? A pergunta embaraçou até mesmo grandes especialistas. Entrevistado por Luís Nassif, Ricardo Guedes, diretor do Instituto Sensus, sugeriu que a chave era o tema do aborto. Dilma deveria fazer um pronunciamento “amplo e forte” contra a interrupção da gravidez. Era, evidentemente, um equívoco. Se fosse responder a cada uma das invenções lançadas contra si, a candidata não faria mais nada, até 31 de outubro. Além disso, cada resposta acabaria dando mais destaque ao próprio boato. A vítima de uma sequência de calúnias enfrenta um drama semelhante ao de quem cai num poço de areia movediça: quanto mais se debate, mais afunda. A única saída é buscar um ponto de apoio externo.

Dilma viu no debate da Band, em 10 de outubro, o momento para escapar do poço. Procurou o ponto de apoio mais potente – e, ao mesmo tempo, mais difícil e arriscado. Em sua primeira pergunta a Serra, questionou diretamente a desqualificação da campanha. Já na réplica, ainda mais incisiva, apontou a manipulação de suas opiniões relativas tema ao aborto. Voltou ao ele numa pergunta posterior, quando, para ampliar a veracidade do que alegava, mencionou o envolvimento de Mônica Serra no esforço de difamação.

Estava visivelmente tensa: naqueles instantes, qualquer escorregão em sua fala seria catastrófico. Mas completou bem o movimento, que lhe trouxe duas vantagens. Abriu caminho para que sua campanha continue denunciando a armação adversária – ou seja, produzindo antídotos contra a desconstrução de sua imagem. E mostrou grande coragem, desmentindo na prática a impressão – preconceituosa e machista – de que é mero produto de marketing de Lula. Estes dois pontos lhe deram o apoio necessário para abrir, em seguida, o questionamento político e programátrico a Serra. A escolha dos temas era óbvia: privatizações e programas de redistribuição de renda, símbolos máximos da diferença entre o projeto do lulismo e o das elites.

Dará certo? O objetivo principal dos candidatos, num debate como o da Band não é conquistar o eleitorado, mas redefinir os temas que polarizarão a campanha em seguida. Mesmo com apenas 2% de audiência, o evento cria fatos incontornáveis. Os primeiros efeitos foram logo sentidos. A campanha de Serra e os jornalistas que a bajulam tentaram desqualificar a nova postura da candidata – um sinal evidente que ela leva a disputa para um terreno que temem. Mais: o programa de TV do PSDB-DEM foi obrigado a referir-se à privatização. Não poderá manter por muito tempo a abordagem totalmente falsificadora que, como se viu, adotou – desde que a campanha de Dilma aprofunde o tratamento dado ao tema…

Uma coisa é certa: a três semanas da eleição, o giro executado pela candidata em 10 de outubro é um movimento sem retorno. A “Diminha paz e amor”, a continuadora quase natural do legado de Lula, deu lugar a um novo personagem político. Dele precisa fazer parte, também, a polemizadora; a mulher que demonstra vasto conhecimento técnico sobre os programas que coordenou no governo; a que, por estar profundamente envolvida no movimento de democratização expresso pelo lulismo, sente-se à vontade para provocar o choque pedagógico entre prejetos para o Brasil. Desta iniciativa dependem agora tanto a repolitização da campanha quando a consolidação ou recomposição da imagem de Dilma, entre a parcela do eleitorado que esteve ou está em dúvida sobre seu voto.

As reviravoltas de campanha levam algum tempo para produzir todos os seus efeitos. É possível que eles não sejam captadas pelas próximas pesquisas – ou seja, que a diferença entre os dois candidatos volte a diminuir ou mesmo desapareça. Será preciso muita calma nessa hora. O grande risco a evitar é o desespero, que levaria a reverter o giro de Dilma.

O programa de TV será, nesta reta derradeira, o palco central para este confronto de projetos. A trilha aberta em 10 de outubro só pode ser preenchida com muita informação. É preciso expor, por exemplo, – e sempre por meio de fatos – a resistência (política e simbólica) da base de Serra aos programas de redistribuição de renda; as tentativas de sabotar os projetos de lei que tratam do Pré-Sal (um ano depois de apresentados, só um foi transformado em lei pelo Congresso). Se feita com sabedoria e talento, a exposição dos absurdos assacados contra Dilma pela campanha apócrifa lançará o feitiço contra o feiticeiro.

Viveremos fortes emoções, nas próximas semanas. Mas o processo de transformações inciado há oito anos tem potência suficiente para voltar a se impor, entre a maioria do eleitorado. Se isso ocorrer, Dilma acrescentará a sua história pessoal a inteligência de ter sabido, a tempo, comandar o movimento necessário para derrotar a direita-Tea Party – este quase-fascismo pós-moderno que ronda o Brasil em 2010.

(1) — Em 3 de julho, data fixada pelo TSE para que os candidatos apresentassem seus programas de governo, a coligação PSDB-DEM-PPS protocolou na Justiça Eleitoral apenas a transcrição dos discursos de Serra feitos na convenção conjunta das três agremiações. A mídia comercial acobertou tal ausência – enquanto destacava, por dias, o fato de a campanha Dilma ter alterado alguns dos itens do programa formalmente apresentado.

(2) — Sempre tendente à mistificação e ao provincianismo, a velha mídia tratou Singh como um “guru”. Certamente, impressionou-se por sua origem indiana, ou pelo fato de usar o turbante típico da etnia sikh…



Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17102

Em nota, senador eleito pelo PSOL-AP contesta críticas


Em nota enviada à Carta Maior, Randolfe Rodrigues, senador eleito pelo PSOL-AP, contesta críticas à posição do partido na eleição no Amapá, feitas em artigo publicado nesta página. "Causou-me espécie as expressões equivocadas e tendenciosas do último parágrafo do citado artigo, tais como : “projeto fisiológico de poder no PSOL”, “declarações contraditórias” a mim atribuídas, bem como “críticas de outros diretórios e de expoentes nacionais do PSOL”. Reafirmo minhas convicções para os leitores de Carta Maior: me orgulho de ter firmado aliança com Lucas Barreto, pois esta atitude decidida pelo Diretório Estadual, em nada feriu o programa e o ideal do PSOL".

Nota enviada à redação da Carta Maior por Randolfe Rodrigues, senador eleito pelo PSOL-AP:

Com relação ao artigo “O final do segundo exílio do Capi”, de autoria de Fábio Fonseca de Castro, publicado em Carta Maior de 02/11/2010, solicito que seja veiculado o texto a seguir para que se restabeleça a verdade dos fatos, tão prezada por esta agência:

1: Fui eleito Senador pelo Amapá com mais de 203 mil votos (a segunda maior votação proporcional do país) sem coligação com nenhum outro partido, mas em aliança com o candidato do PTB ao governo, Lucas Barreto.

2: Lucas Barreto foi um candidato independente, não vinculado a nenhuma máquina de governo e não contou com o apoio do Senador José Sarney e nem de nenhum outro senador. Os candidatos do Senador Sarney no pleito foram os mesmos que receberam o apelo de Lula na TV para que os amapaenses neles votassem: o Ex-governador Waldez Góes (PDT) e o Senador Gilvam Borges (PMDB).

3: O fato de Sarney não ter participado da eleição para o governo é referendado pela matéria “Sarney ‘lava as mãos’ nas eleições do Amapá” de Menezes y Morais, da agência IG, publicada em 02/11/2010. Na reportagem é revelado que o Ex-Presidente Sarney sequer votou para governador: “ao sair na escola Antonio Pontes, em Macapá, onde votou, Sarney revelou que votou apenas em Dilma, presidenta eleita. Não disse por que se absteve de votar para governador do Estado.”

4: Informo ainda que nos esforçamos para reeditar a coligação PSB-PSOL que disputou as eleições para a Prefeitura de Macapá em 2008. Nossa intenção foi negada pelo PSB com a afirmação de que jamais a esquerda poderia eleger dois senadores no Amapá, reservando-me tão somente uma vaga para disputar a eleição para Deputado Estadual. Como se viu, a esquerda conseguiu eleger dois senadores: eu em primeiro e o Senador João Alberto Capiberibe em segundo, com 138 mil votos.

5: Pelo exposto, causou-me espécie as expressões equivocadas e tendenciosas do último parágrafo do citado artigo, tais como : “projeto fisiológico de poder no PSOL”, “declarações contraditórias” a mim atribuídas, bem como “críticas de outros diretórios e de expoentes nacionais do PSOL”. Reafirmo minhas convicções para os leitores de Carta Maior: me orgulho de ter firmado aliança com Lucas Barreto, pois esta atitude decidida pelo Diretório Estadual, em nada feriu o programa e o ideal do PSOL . Desejo sinceramente que Camilo faça um bom governo, colocando nosso mandato à disposição para o bem do Amapá. Anseio que Capi e Janete tenham confirmadas suas eleições no STF, para fazer valer a vontade do povo. Minhas posições políticas e ideológicas sempre foram e permenecerão sendo diametralmente opostas às sustendadas pelo Senador Sarney.

Atenciosamente,
Randolfe Rodrigues
Senador Eleito pelo PSOL-AP


Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17164

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Petistas repudiam manifestações de preconceito contra nordestinos

Parlamentares da bancada do PT na Câmara repudiaram, em pronunciamento no plenário, o que chamaram de manifestações de preconceito e discriminação de alguns segmentos do país com relação ao nordeste e ao povo nordestino.

O deputado Domingos Dutra (PT-MA) criticou "as ações preconceituosas de alguns eleitores do sul do país, que tentaram atribuir a vitória de Dilma Rousseff ao atraso do Nordeste".

De acordo com Dutra, a ex-ministra Dilma foi eleita Presidente do Brasil com maioria de votos no nordeste, "porque o Presidente Lula, pela primeira vez na história do país, olhou para o Nordeste de forma diferenciada, fez investimentos em obras estruturantes, como a transposição do Rio São Francisco e a instalação de refinarias na região, além de investimentos sociais", disse.

"O Nordeste deu maioria de votos à presidente Dilma porque, com raríssimas exceções, as oligarquias perversas que dominavam a região foram de lá varridas. Hoje temos governos progressistas na Bahia, no Ceará, em Pernambuco, na Paraíba e no Piauí", afirmou o deputado Domingos Dutra.

O deputado Luiz Couto (PT-PB) afirmou que o voto do nordestino vale tanto quanto o de qualquer brasileiro e não pode ser desqualificado. O parlamentar petista avaliou como muito grave a discriminação. "É muito grave esse preconceito, essa xenofobia em relação ao nordestino. E o investimento que o Governo Federal fez no Nordeste é a prova cabal de que eles estão no caminho certo. A OAB de Pernambuco já entrou com representação contra aqueles que usaram a Internet para desqualificar o nordestino", ressaltou o parlamentar petista.

www.ptnacamara.org.br

BRASIL DESAFIOU A ORTODOXIA NEOLIBERAL DURANTE A CRISE. E REGISTROU O MAIOR AVANÇO NO IDH DE 2010



Com a 5º maior população do planeta, o Brasil liderou o avanço do Indice de Desenvolvimento Humano de 2010. Embora ainda abaixo da média latinoamericana, o IDH brasileiro alcançou a 73º posição, com um aumento de 0,8%, o mais expressivo entre 179 países. Em 2009, o Brasil ocupava a 75ª posição no ranking. Relatório da ONU destaca o "sucesso econômico recente" da estratégia brasileira, que desafiou "a ortodoxia do Consenso de Washington". A crise ampliou a margem de manobra ideológica dentro e fora do governo para afrontar dogmas e interditos neoliberais. Governo Lula reforçou o investimento público, ampliou a presença dos bancos estatais na economia e preservou o poder de compra da população com incremento no crédito, reajustes nos benefícios sociais e no valor do salário mínimo. Ancorada em impulsos endógenos, economia voltou a crescer de forma robusta num momento em que a contração do comércio mundial não dá sinais de reversão e o capitalismo norte-americano patina, desprovido de políticas públicas para fomentar o emprego e a produção. Travessia brasileira foi consagrada nas urnas com a vitória da candidata do governo, legitimando a ênfase no mercado interno e na união latinoamerciana para contornar a paralisia internacional. Meta de erradicar a pobreza extrema na sociedade até 2014, um dos compromissos da presidente eleita Dilma Rousseff, ganha credibilidade adicional com o IDH 2010 .

EUA: MAIS US$ 600 BI NUMA ECONOMIA QUE NÃO REAGE
Crise americana carece de políticas desenvolvimentistas. Mas avanço conservador na Câmara torna-as ainda mais improváveis. Estado norte-americano foi desfibrado por décadas de neoliberalismo. Crise mundial será longa; guerra cambial vai se agravar. (leia mais)

Carta Maior - 05/11

Militantes do PT fazem enterro de Serra no dia de Finados


02 de novembro de 2010 21h45

Militantes do PT sepultaram, em Pernambuco, José Serra (PSDB). Foto: Ed Ruas/Especial para Terra

Manifestação em Pernambuco simula enterro de José Serra
Foto: Ed Ruas/Especial para Terra

Ed Ruas
Direto de Olinda

Cerca de 15 militantes do PT "sepultaram", nesta terça-feira (2), o candidato à presidência derrotado, José Serra (PSDB), em um ato pelas ruas de Olinda. Os eleitores de Dilma Rousseff (PT) confeccionaram um "caixão" miniatura para o tucano e utilizaram o dia de Finados para fazer um "ato político-anárquico", nas ladeiras da cidade. "Aqui já é pré-carnaval e temos essa tradição da irreverência em Olinda. Queremos simbolizar o fim da vida pública de José Serra. Além da brincadeira, nós estamos comemorando a vitória de Dilma, fazendo nossa confraternização, das pessoas que fizeram a campanha", explicou Alexandre Miranda, um dos idealizadores do ato.

A maior parte dos participantes é filiada ao PT e integra a tendência do partido denominada Movimento de Ação e Identidade Socialista (MAIS). Com os militantes munidos com velas, o "cortejo fúnebre" saiu pelas ladeiras de Olinda chamando a atenção das pessoas. No caixão, além da foto de José Serra, bolas de papel foram destacadas, além de palavras como "homofobia" e "injustiça". "São palavras que simbolizam Serra", explicou Miranda.

No Estado, José Serra obteve 1.113.235 votos. Número inferior às abstenções registradas, que somaram 1.373.943. Dilma Rousseff obteve em Pernambuco 75,65% dos votos válidos, o equivalente a 3.457.953.


Fonte: http://noticias.terra.com.br/eleicoes/2010/noticias/0,,OI4769519-EI15332,00-Militantes+do+PT+fazem+enterro+de+Serra+no+dia+de+Finados.html

Voto nulo não invalida eleição, diz Marco Aurélio

06/09/2006 - 09h28

Por FERNANDO RODRIGUES
da Folha de S.Paulo

O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Marco Aurélio Mello, debelou de vez um mito que circula há meses na internet: o de que as eleições para deputados federais ou estaduais seriam anuladas no caso de mais da metade dos votos serem nulos. Segundo o ministro, não há lei que contenha essa determinação. A regra também inexiste na Constituição.

Marco Aurélio começa pela Constituição: "A Carta manda que o eleito para presidente tenha pelo menos 50% mais um dos votos válidos. Estão excluídos desse cálculo os brancos e os nulos. Mas se, por hipótese, 60% dos votos forem brancos ou nulos, o que não acredito que vá acontecer, os 40% de votos dados aos candidatos serão os válidos. Basta a um dos candidatos obter 20% mais um desses votos para estar eleito".

A Folha quis saber também do ministro se o Código Eleitoral (lei 4.737, de 1965) não respaldaria a tese de que 50% dos votos nulos resultariam na anulação da eleição. Marco Aurélio Mello respondeu de maneira taxativa: "Não". Na realidade, o que tem ocorrido nas correntes que circulam pela internet é uma leitura equivocada do Código Eleitoral e de algumas decisões antigas do TSE, que deixavam margem para dúvida. É que o artigo 224 diz o seguinte: "Se a nulidade atingir a mais de metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40 (quarenta) dias".

O fato é que a "nulidade" à qual se refere esse artigo 224 do Código Eleitoral é aquela decorrente de fraude, de algum ilícito ou de acidente durante o processo eleitoral. Por exemplo, quando alguém usa documento falso para votar em nome de terceiro, ou quando as urnas se extraviam ou são furtadas. Isso fica claro no parágrafo 2º desse artigo, que determina ao Ministério Público promover "imediatamente a punição dos culpados".

"Quem vota nulo por vontade ou por erro não é culpado de nada nem pode ser punido, até porque o voto é dado de maneira secreta", diz Marco Aurélio.

Para reforçar seu entendimento, ele cita os artigos anteriores ao 224, que tratam também da nulidade dos votos. O artigo 220 diz que existe a anulação se a votação foi "perante mesa não nomeada pelo juiz eleitoral", "em folhas de votação falsas", realizada "em dia, hora, ou local diferentes do designado ou encerrada antes das 17 horas" ou "quando preterida formalidade essencial do sigilo dos sufrágios". Ou seja, nada que esteja relacionado ao voto nulo dado pelo eleitor. O artigo 222 é claro sobre as possibilidades de anulação: "É também anulável a votação, quando viciada de falsidade, fraude, coação (...) ou emprego de processo de propaganda ou captação de sufrágios vedado por lei".

Marco Aurélio também informa que seu entendimento está em linha com o que o TSE já decidiu num julgamento recente, no último dia 17 de agosto. Ao tratar de um caso em que se requeria a anulação de uma eleição municipal em Ipecaetá, na Bahia, o TSE proferiu: "Não se somam (...), para fins de novas eleições, os votos nulos decorrentes de manifestação apolítica do eleitor, no momento do escrutínio, seja ela deliberada ou decorrente de erro".

A decisão sobre esse "recurso especial" pode ser lida no site do TSE, no setor de "inteiro teor", com o número 25.937.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u82610.shtml

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Lula não quer Malocci no Palácio. E o Cardozo pode ?

Diz a manchete do Globo:

Lula não quer Malocci na Casa Civil nem na equipe econômica.

O Conversa Afiada recebe a notícia com regozijo.

(Embora duvide que o Lula venha a mandar no Governo da Dilma. Nenhum dos dois quer.)

E há muito tempo este ordinário blogueiro não aplaude o Globo com tanto entusiasmo.

Antonio Malocci foi o único Ministro da Fazenda do Brasil, desde Delfim Netto no Governo Médici, que este ordinário blogueiro não entrevistou.

Jamais conseguiu uma mísera entrevista, ainda que por telefone com o Ministro Malocci.

Sabe por que, amigo navegante ?

Porque este ordinário avisava ao assessor de imprensa do notável ministro Malocci que pretendia fazer singela pergunta: por que o senhor mantém na presidência da CVM, o órgão xerife do mercado de capitais, o escolhido por Fernando Henrique, Luis Leonardo Cantidiano, sócio de Daniel Dantas ?

Por que mantê-lo ? , queria saber este ordinário blogueiro.

Muitas e muitas vezes este ordinário blogueiro solicitou entrevista a Marcelo Netto, conhecido assessor de imprensa do Ministro Malocci.

Inútil.

Malocci só não deu mais entrevistas à urubóloga Miriam Leitão do que o Malan, propriamente dito.

Malocci é pior que o Serra: não pode ver um repórter da Globo.

Além de ser (inútil) colonista (*) do Globo (como ele escreve mal !).

Entrevista a este ordinário blogueiro, jamais !

Além de manter Cantidiano até o fim do mandato, Malocci nomeou para o lugar uma pessoa de confiança de Cantidiano, Marcelo Trindade, advogado de Cantidiano em ação que move contra o corajoso jornalista Rubens Glasberg.

Estranho, não, amigo navegante ?

Este ordinário blogueiro tem a séria desconfiança de que o notável Ministro Malocci, o quindim de Iaiá dos banqueiros, nutra por Daniel Dantas (e os advogados de Dantas, caríssimos !) a mesma avaliação do Fernando Henrique: “brilhante ! ”.

Clique aqui para ler o necrológio que Mino Carta fez de FHC na Carta Capital.

Se o Malocci não pode, o José Eduardo Cardozo pode ?

José Eduardo Cardozo não se candidatou à reeleição a deputado federal pelo PT de São Paulo porque, talvez, desconfiasse que não fosse eleito.

E se proclamou Papagaio de Pirata de Dilma.

Sobre isso, no post “Dilma chora ao agradecer a Lula”, o Conversa Afiada já se manifestou:

Em tempo: confirmou-se hoje a entronização do ex deputado José Eduardo Cardozo na função de Papagaio de Pirata da Presidenta Dilma.

Ela de branco e, mais alto, ele de preto, atrás, levemente deslocado para que seu rosto pudesse ser sempre captado.

Ali, o Papagaio arrumava o cabelo e fazia o queixo repousar sobre a mão.

Dialogava com a platéia e tirava a atenção da Presidenta.

A Nação agradeceria se essa função fosse abolida, a de Papagaio de Pirata.


Na sucessão de Marcio Thomaz Bastos, chegou-se a falar em Cardozo para Ministro da Justiça de Lula.

Este ordinário blogueiro sentenciou: se isso acontecesse, Cardozo nomearia Daniel Dantas Diretor Geral da Polícia Federal,

Na CPI dos Correios, Cardozo fez uma pergunta tão inútil quanto complexa, o que permitiu a Daniel Dantas dar uma resposta tão complexa quanto inútil.

E tirar o pescoço da forca.

Foi uma pergunta igualmente “dura” e cúmplice.

Há no passado de Cardozo uma zona cinzenta: a que encobre a compra da empresa de telecomunicação do Rio Grande do Sul por Daniel Dantas, nos “porões da privataria”, como diz o Amaury Ribeiro Jr.

Depois, houve o inesquecível jantar árabe (?) na casa do então senador Heráclito Fortes, líder da Bancada Dantas.

Daniel Dantas promoveu o jantar para dizer pessoalmente ao Ministro Thomaz Bastos que não era o autor da reportagem de Marcio Aith – assessor de Serra – com a conta secreta de Lula num paraíso fiscal.

(Depois a própria Veja confessou que ele, Dantas, escreveu a chamada reportagem a quatro mãos com Aith.)

Quem estava no jantar, para referendar o rega-bofe sinistro ?

O deputado Cardozo !

Por que o Heráclito chamou o Cardozo ?

Por que não chamou a Luiza Erundina ?

O deputado Walter Pinheiro, agora Senador pela Bahia, e que também entende de Comunicação, como a Erundina ?

Por que logo o Cardozo ?

Quando o Conversa Afiada disse que Cardozo nomearia Dantas Diretor Geral da Policia Federal, Cardozo me procurou na Câmara dos Deputados.

Reclamou, reclamou.

Este ordinário blogueiro explicou, como agora, por que tinha dito aquilo.

Cardozo ficou de mandar uma nota de esclarecimento.

Não chegou até hoje.

Ah !, esse Correio !

Paulo Henrique Amorim

(*) Não tem nada a ver com cólon. São os colonistas do PiG (**) que combatem na milícia para derrubar o presidente Lula. E assim se comportarão sempre que um presidente no Brasil, no mundo e na Galáxia tiver origem no trabalho e, não, no capital. O Mino Carta costuma dizer que o Brasil é o único lugar do mundo em que jornalista chama patrão de colega. É esse pessoal aí.

(**) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.



Fonte: http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/11/02/lula-nao-quer-malocci-no-palacio-e-o-cardozo-pode/

A vitória de Dilma Rousseff em dez chaves

A vitória de Dilma Rousseff em dez chaves

Ganhou a candidata partidária da consolidação da Unasul e da expansão do Mercosul. Na campanha, Serra chegou a dizer que o Mercosul era “uma farsa”. Na entrevista que concedeu a Marco Aurélio Garcia e Emir Sader para o livro “Brasil, entre o passado e o futuro”, Dilma Rousseff disse que “só se é líder regional responsável, verdadeiramente, sem belicismos e com muita solidariedade e espírito associativo”. Ao falar dos oito anos de Lula, assinalou que “conseguimos o direito de reconstruir o Estado nacional na medida em que o Brasil conquistou autonomia na relação com a política internacional”. O artigo é de Martín Granovsky, do Página 12.

1. Dilma Rousseff ganhou as eleições por uma diferença ampla, de 56 a 44 por cento dos votos. Obteve mais de 55 milhões de votos, 12 milhões a mais que José Serra. Em nível mundial, considerando os países que são governados por eleições livres e o número de votantes, é a maior vitória de uma coalizão de partidos dirigida por uma força de esquerda. O Brasil já elegeu um operário pela primeira vez como presidente. Agora, trata de eleger a primeira mulher presidenta de sua história.

2. Aos 65 anos recém cumpridos (em 27 de outubro, mesmo dia em que morreu Néstor Kirchner), Lula deixa a presidência como o líder mais popular da história do Brasil e uma figura de primeiro nível na América do Sul e no mundo. Já prometeu que não ofuscará a presidenta e que se dedicará à região (América do Sul) e às relações com a África. Mas quando quiser, Dilma terá à disposição um sábio confiável e um negociador com 35 anos de experiência.

3. A vitória de Dilma demonstra o êxito da aposta de Lula, quando pediu ao Partido dos Trabalhadores, no quarto congresso do partido realizado em fevereiro deste ano, que ela fosse consagrada candidata ainda que não tivesse forte inserção na militância petista e jamais tivesse disputado uma eleição. É óbvio que a popularidade de Lula, superior a 80%, derramou uma simpatia massiva sobre Dilma. Mas a popularidade de Michelle Bachelet no Chile era similar e o candidato da Concertação, Eduardo Frei, foi derrotado pelo direitista Sebastián Piñera. Lula e o PT não se acomodaram com essa popularidade. Lançaram a militância às ruas, não deixaram nada jogado ao sabor dos centos e ampliaram a base de sustentação partidária, política e social.

4. Quando Dilma assumir, em 1° de janeiro de 2011, uma coalizão governará com maioria no Senado e na Câmara de Deputados. Considerando o tabuleiro por forças políticas, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), será o primeiro com 20 senadores, seguido pelo PT com 14, seis a mais do que antes. A direita tradicional do Partido Democrata (DEM), caiu de 13 para 6 senadores e o Partido Socialdemocrata Brasileiro (PSDB), de Serra, caiu de 14 para 11. Na Câmara de Deputados, o PT elegeu 88 representantes e o PMDB, 79. Em governos estaduais, sem contar os aliados, o PT controlará cinco Estados: Distrito Federal (Brasília), Rio Grande do Sul, Bahia, Sergipe e Acre.

5. O PT manteve as alianças e as ampliou. Neste cenário é um elemento chave que o vice-presidente seja Michel Temer, do PMDB, de centro. O PMDB, um conglomerado heterogêneo, tem amplitude territorial e governadores próprios. Lula começou tecendo com o PMDB, a sua direita, uma aliança parlamentar e de governabilidade em nível federal. Terminou construindo uma aliança de governo. O apoio ao PT foi muito forte entre os trabalhadores, o subproletariado do Nordeste e a nova classe média (convertida a essa condição durante o governo Lula) e talvez – elemento que ainda requer uma análise mais fina – entre setores da classe média tradicional. O Brasil tem hoje apenas 6,2% de desempregados.

6. Em relação aos 20 milhões de votos obtidos, no primeiro turno, por Marina Silva e seu Partido Verde, é arriscado dizer que 10 milhões tenham ido para Serra e outro tanto para Dilma. Contudo, ficou claro que as especulações sobre a possibilidade desses 20 milhões de votos migrarem de modo maciço para um dos candidatos eram disparatadas.

7. Serra perdeu o segundo turno após uma campanha ainda mais direitista que a de Fernando Collor de Mello em 1989, quando o candidato da Rede Globo derrotou Lula. O tom incluiu apelos ao Demônio inspiradas na organização Tradição, Família e Propriedade e repetidas nas dioceses que o Papa João Paulo II inundou de bispos ultraconservadores. A luciferização de Dilma, apresentada como uma maníaca do aborto, mergulhou o Brasil em seu lado mais obscuro. Mas o obscurantismo foi derrotado. Do mesmo modo que na Argentina, com a Lei do Matrimônio Igualitário (permite a união civil homossexual), os brasileiros conservaram suas crenças mas votaram de maneira secular.

8. Ganhou a candidata partidária da consolidação da Unasul e da expansão do Mercosul. Na campanha, Serra chegou a dizer que o Mercosul era “uma farsa”. Na entrevista que concedeu a Marco Aurélio Garcia e Emir Sader para o livro “Brasil, entre o passado e o futuro”, que acaba de ser publicado na Argentina, Dilma disse que “só se é líder regional responsável, verdadeiramente, sem belicismos e com muita solidariedade e espírito associativo”. Ao falar dos oito anos de Lula, assinalou que “conseguimos o direito de reconstruir o Estado nacional na medida em que o Brasil conquistou autonomia na relação com a política internacional”. Também definiu que para garantir a própria industrialização foi chave fechar o caminho da integração com os Estados Unidos via uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), posição compartilhada com a Argentina e a Venezuela na Cúpula de Mar del Plata de 2005.

9. Dilma anunciou que continuará com o controle da inflação e a estabilidade macroeconômica, mas que não cortará gastos sociais nem investimentos na infraestrutura. Também reafirmou que não desperdiçará os recursos das novas reservas de gás e petróleo descobertas pela Petrobras, o Pré-Sal. Enviará ao Congresso um projeto que definirá o marco social para a exploração desses recursos.

10. Os grandes veículos da imprensa escrita, como Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo e Veja, não conseguiram fazer com que sua agressividade derrotasse Dilma e tampouco conseguiram impor uma agenda própria de fantasmas, como o do aborto, o dos suposto autoritarismo de Lula ou o da eternização antidemocrática do PT. Na noite de domingo, em seu discurso da vitória, Dilma disse o que pensa o PT e procurou demonstrar uma superioridade moral: “As críticas do jornalismo livre são essenciais para assinalar os erros do governo”, disse. “Prefiro o ruído da imprensa livre ao silêncio das ditaduras”, disse a candidata que foi estigmatizada por seu passado guerrilheiro quando, na verdade, essa insurgência foi o primeiro ensaio de oposição à ditadura que tomou o poder em 1964.

Tradução: Katarina Peixoto



Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17149

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Eleição de Dilma é a maior vitória do lulismo no Brasil

Dilma venceu. Lula venceu. Depois do primeiro trabalhador, temos a primeira mulher na presidência do Brasil. Não foi uma vitória fácil

Fazer um balanço de uma campanha eleitoral ainda no calor dos acontecimentos é tarefa arriscada. Mas vamos ao desafio proposto por nosso editor.

Nova hegemonia – Estamos vivendo os primeiros dias de uma nova hegemonia no Brasil. Como dizia aquela música do Roberto e do Erasmo, “daqui pra frente, tudo vai ser diferente”. Agora, o Brasil tem um novo projeto de nação, capaz de ofertar oportunidades a todos os brasileiros. Daqui pra frente, crescimento econômico e justiça social não serão mais antagônicos, assim como sustentabilidade e desenvolvimento. O Brasil se lança no mundo moderno como um país capaz de enfrentar os desafios do mundo globalizado. Não é pouca coisa!

Tenho lido e ouvido muitas críticas ao nível dos debates nesta eleição. Posso concordar com algumas, mas em geral estou em desacordo. Penso que esta eleição teve o melhor e mais transparente debate político de todos. Acompanho eleições desde 1982. Esta foi a primeira em que os projetos foram explicitados. O argumento de que os debates não trataram das questões importantes, em geral é daqueles que não conseguiram pautar os rumos da campanha. Agora tentam desqualificar a decisão do eleitor, dizer que o voto foi no marketing e não na política.

Penso que ocorreu justamente o contrário. Pode não ter sido um debate muito aprofundado, mas foi o mais elevado possível dentro da nossa realidade. O eleitor, em 2010, votou consciente.

A direita no Brasil, em campanha eleitoral, sempre apresentou um discurso de centro-esquerda. Quando isso é possível, os debates eleitorais sempre são “muito bons”. Atendem, formalmente, os anseios do eleitor, que deseja uma política séria, comprometida com a justiça social, com o desenvolvimento e a democracia. O último debate na rede Globo é o maior exemplo disso. As diferenças entre Dilma e Serra se diluíram. Os dois apareceram como políticos esforçados, candidatos a fazer o melhor pelo Brasil e pelos brasileiros.

Entretanto, a marca desta campanha não foi esta. Tivemos um franco combate entre o lulismo e a direita brasileira. Uma guerra. Pela primeira vez, desde 1989, a direita apresentou-se aos eleitores brasileiros com sua própria cara, com seus preconceitos e propostas obscurantistas. E o lulismo, ao inverso, pôde se apresentar como realizador, como um sujeito político capaz de “seguir mudando”.

A guerra eleitoral – Uma campanha eleitoral é sempre uma guerra. O campo de batalha é a mente do eleitor. Até estas eleições, o discurso de “centro-esquerda” da direita obedecia à máxima do conservadorismo brasileiro: o poder se toma com a mão esquerda (frágil), e se exerce com a mão direita (forte). Em campanha, a direita sempre se apresentou com preocupação social, ao lado dos mais pobres, defensora de suas demandas mais importantes. Em 2010, Serra bem que tentou, fazendo propostas mirabolantes para o salário mínimo, a previdência, o Bolsa Família. Tentou, mas não conseguiu.

Nesta eleição, ao bancar a lógica plebiscitária, Lula conseguiu inverter a mão. O discurso de centro esquerda, que sempre foi ferramenta da direita em campanha, tornou-se instrumento do lulismo. Temendo ser invadida em seus espaços de atuação e apoio eleitoral (o que já vinha ocorrendo com os mais de 80% de aprovação de Lula), a direita se viu obrigada a, pela primeira vez, defender-se em seu próprio terreno. O terreno do preconceito. Do conservadorismo. Da “ética”. Da religiosidade e da hipocrisia na questão do aborto.

O posicionamento multipolar de Serra tem origem nesta mudança estrutural na correlação de forças no Brasil. Serra amanhecia Opus Dei e dormia apoiando o que o “Lula tem de bom”. Iniciava o dia com um discurso do DEM e terminava a noite com “Serra é do bem”. Ao longo do dia apresentava “mil caras” entre a extrema-direita e a centro-esquerda.

A campanha Dilma – Não tenho ideia de quem foi a condução da campanha no dia a dia. Gerenciar uma campanha presidencial é sempre uma tarefa muito complexa. Mas se foi João Santana o condutor do marketing, parabéns!

Na passagem para o segundo turno tecemos algumas considerações sobre a necessidade de introduzir mudanças na campanha. Grosso modo, todas as medidas que conseguimos vislumbrar naquele momento foram implementadas. E o ataque reacionário usando a Igreja -até o Papa foi mobilizado- foi contornado com maestria pelo marketing de Dilma.

Foi uma campanha conduzida com firmeza e tranquilidade. O eleitor votou sabendo o que pode esperar de Dilma. E isso, numa eleição, é sempre o mais importante. Quando o candidato estabelece uma conexão sólida com o eleitor, baseada na verdade, não há desconstrução de imagem que funcione. Dilma, há cerca de dois anos, não era ninguém do ponto de vista eleitoral. Hoje, é tudo.

O papel da velha mídia – Tratando das eleições gaúchas há cerca de um ano, afirmei que estas seriam as eleições mais livres que já tivemos porque a mídia estava perdendo o controle da opinião pública e, principalmente, já não controla os setores emergentes na sociedade brasileira.

De fato, foi isso o que ocorreu. O episódio da bolinha de papel, que a campanha Serra tentou utilizar para inverter a tendência de derrota que já se apresentava, foi exemplar nesse sentido. Fossem outros os tempos, a versão apresentada pela rede Globo se afirmaria como verdadeira. E os rumos do processo poderiam ter sido alterados.

A mídia velha acabou por fazer um triste papel nestas eleições, o de dar guarida para o terrorismo midiático-ideológico que a campanha Serra desencadeou ao ver suas cidadelas ameaçadas. Mas seu papel acabou por ser menor. A tal ponto que agora, passadas as eleições, chega a ser ridículo assistir os comentaristas políticos da Globo News acusando Lula de ter feito campanha.

Quando ficou evidente a ineficácia da velha mídia, a direita foi obrigada a apelar para outras ferramentas. Foi por não conseguir reverter as tendências com o “simples” apoio dos jornalões e da Globo que a campanha Serra apelou para o telemarketing, a panfletaria apócrifa, os vídeos terroristas na internet.

A internet e o futuro – Sou de uma geração que apostou na luta política e na disputa do poder através do voto. A geração anterior a minha pensava a luta com outros métodos, adequados (ou não) para seu momento histórico. Herdeiros desta experiência, apostamos no convencimento, no argumento, na solidariedade, no voto, na democracia.

No início desta eleição, o efeito que a vitória de Obama trouxe sobre o potencial eleitoral da internet criou muitas ilusões a respeito deste meio de comunicação. Embalados pelo exemplo americano, feito “happy monkeys”, os candidatos gastaram muito dinheiro para, no final das contas, produzir spam.

A internet cumpriu um grande papel, mas não da forma que se pensava. Tudo por um motivo muito simples. Uma mensagem, para ser aceita, precisa ter credibilidade. Foram as publicações, os blogs e as pessoas com credibilidade, através do twitter e das redes sociais, que tiveram importância e influíram no curso dos acontecimentos.

Iniciativas como a do professor que gravou as imagens da Globo e as analisou, mostrando a manipulação, de um lado, e desta publicação, posicionando-se abertamente em favor de Dilma, desde o início do processo, fizeram a diferença nestas eleições.

A vitória deste domingo é a primeira grande vitória política do lulismo no Brasil. É pedra fundamental de uma nova hegemonia. Assim como o jornal e o rádio foram as ferramentas de comunicação da política de substituição das importações em meados do século passado e a televisão foi o instrumento de modernização autoritária da Ditadura Militar no final do século, hoje, a comunicação digital, a comunicação em rede, pode ajudar a construir o novo Brasil e consolidar essa nova hegemonia que está nascendo.

Paulo Cezar da Rosa

Paulo Cezar da Rosa é jornalista e publicitário. Publicou o livro O Marketing e a Comunicação da Esquerda. É diretor da Veraz Comunicação e da Red Marketing, ambas sediadas em Porto Alegre. paulocezar@veraz.com.br




Fonte: http://www.cartacapital.com.br/politica/eleicao-de-dilma-e-a-maior-vitoria-do-lulismo-no-brasil

Três mitos sobre a eleição de Dilma

Enquanto o País vai se acostumando à vitória de Dilma Rousseff, uma nova batalha começa. Nem é preciso sublinhar quão relevante, ojetivamente, é o fato de ela ter vencido a eleição, nas condições em que aconteceu. Ela é a presidente do Brasil e, contra este fato, não há argumentos.

Sim e não. Porque, na política, nem sempre os fatos e as versões coincidem. E as coisas que se dizem a respeito deles nos levam a percebê-los de maneiras muito diferentes.

Nenhuma versão muda o resultado, mas pode fazer com que o interpretemos de forma equivocada. Como consequência, a reduzir seu significado e lhe diminuir a importância. É nesse sentido que cabe falar em nova batalha, que se trava em torno dos porquês e de como chegamos a ele.

Para entender a eleição de Dilma, é preciso evitar três erros, muito comuns na versão que as oposições (seja por meio de suas lideranças políticas, seja por seus jornalistas ou intelectuais) formularam a respeito da candidatura do PT desde quando foi lançada. E é voltando a usá-los que se começa a construir uma versão a respeito do resultado, como estamos vendo na reação da mídia e os “especialistas” desde a noite de domingo.

O “economicismo”
O primeiro erro a respeito da eleição de Dilma é o mais singelo. Consiste em explicá-la pelo velho bordão “é a economia, estúpido!”
É impressionante o curso que tem, no Brasil, a expressão cunhada por
James Carville, marqueteiro de Bill Clinton, quando quis deixar clara a
ênfase que propunha para o discurso de seu cliente nas eleições
norte-americanas de 1992. Como o país estava mal e o eleitorado andava insatisfeito com a economia, parecia evidente que nela deveria estar o foco do candidato da oposição.

Era uma frase boa naquele momento, mas só naquele. Na sucessão de
Clinton, por exemplo, a economia estava bem, mas Al Gore, o candidato democrata, perdeu, prejudicado pelo desgaste do presidente que saía. Ou seja, nem sempre “é a economia, estúpido!”
Aqui, as pessoas costumam citar a frase como se fosse uma verdade
absoluta e a raciocinar com ela a todo momento. Como nas eleições que concluímos, ao discutir a candidatura Dilma.
É outra maneira de dizer que os eleitores votaram nela “com o bolso”.
Como se nada mais importasse. Satisfeitos com a economia, não pensaram em mais nada. Foi o bolso que mandou.

Esse reducionismo está equivocado. Quem acompanhou o processo de decisão do eleitorado viu que o voto não foi unidimensional. As pessoas, na sua imensa maioria, votaram com a cabeça, o coração e, sim, o bolso, mas este apenas como um elemento complementar da decisão. Nunca como o único critério (ou o mais importante).

A “segmentação”
O segundo erro está na suposição de que as eleições mostraram que o
eleitorado brasileiro está segmentado por clivagens regionais e de
classe. Tipicamente, a tese é de que os pobres, analfabetos, moradores de cidades pequenas, de estados atrasados, votaram em Dilma, enquanto ricos, educados, moradores de cidades grandes e de estados modernos, em Serra.

Ainda não temos o mapa exato da votação, com detalhe suficiente para testar a hipótese. Mas há um vasto acervo de pesquisas de intenção de voto que ajuda.

Por mais que se tenha tentado, no começo do processo eleitoral, sugerir que a eleição seria travada entre “dois Brasis”, opondo, grosso modo, Sul e Sudeste contra Norte, Nordeste e Centro-Oeste, os dados nunca disseram isso. Salvo no Nordeste, as distâncias entre eles, nas demais regiões, nunca foram grandes.

Também não é verdade que Dilma foi “eleita pelos pobres”. Ou afirmar que Serra era o “candidato dos ricos”. Ambos tinham eleitores em todos os segmentos socioeconômicos, embora pudessem ter presenças maiores em alguns do que em outros.

As diferenças no comportamento eleitoral dos brasileiros dependem mais de segmentações de opinião que de determinações materiais. Em outras palavras, há tucanos pobres e ricos, no Norte e no Sul, com alta e com baixa escolaridade. Assim como há petistas em todas as faixas e nichos de nossa sociedade.Dilma venceu porque ganhou no conjunto do Brasil e não em razão de um segmento.

O “paternalismo”
O terceiro erro é interpretar a vitória de Dilma como decorrência do
“paternalismo” e do “assistencialismo”. Tipicamente, como pensam alguns,como fruto do Bolsa Família.

Contrariando todas as evidências, há muita gente que acha isso na
imprensa oposicionista e na classe média antilulista. São os que creem
que Lula comprou o povo com meia dúzia de benefícios.
As pesquisas sempre mostraram que esse argumento não se sustenta. Dilma tinha, proporcionalmente, mais votos que Serra entre os beneficiários do programa, mas apenas um pouco mais que seu oponente. Ou seja: as pessoas que tinham direito a ele escolheram em quem votar de maneira muito parecida à dos demais eleitores. Em São Paulo e Minas Gerais, por exemplo, os candidatos do PSDB aos governos estaduais foram eleitos com o voto delas.

Os três erros têm o mesmo fundamento: uma profunda desconfiança na capacidade do povo. É o velho preconceito de que o “povo não sabe votar” ue está por trás do reducionismo de quem acha que foi a barriga cheia que elegeu Dilma. Ou do argumento de que foram o atraso e a ignorância da maioria que fizeram com que ela vencesse. Ou de quem supõe que a pessoa que recebe o benefício de um programa público se escraviza.

É preciso enfrentar essa nova batalha. Se não, ficaremos com a versão dos perdedores.


*Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense.


Fonte: http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/tres-mitos-sobre-a-eleicao-de-dilma

A vida clandestina dos que ficaram

Livro mostra o trabalho de militantes de esquerda que permaneceram no Brasil no duro período da ditadura

Por Marcela Sevilla Farrás

Resultado de meses de pesquisa e inúmeras conversas com ex-integrantes do Partido Comunista do Brasil que viveram bem de perto os anos da ditadura, "No avesso do paraíso - Vida clandestina nos tempos dos generais" traz à tona os detalhes da vida de quem resistiu ao exílio, à prisão e até à morte para levar adiante - mesmo sob a densa atuação do aparelho repressivo - o ideal socialista. Escrito pela jornalista Lucília Atas Medeiros, o livro reúne experiências de seis dos tantos militantes de esquerda que transpuseram o período de 1964 a 1978 em território nacional, lutando sem armas pela retomada da liberdade e pelo desenvolvimento de uma sociedade justa.

Ao lado da esposa Ana, Odilon Guedes - na época um jovem de seus vinte e tantos anos - usava suas habilidades mais comuns para recrutar lideranças promissoras para o PCdoB. Com um jeito "boa praça" e uma facilidade extrema de atrair amizades por conta de passatempos cotidianos como um jogo de futebol, o economista formado pela Pontifícia Universidade Católica e - inicialmente - morador da região das Perdizes se escondia atrás de uma vida pacata para ajudar o desenvolvimento da causa revolucionária.

A portuguesa Leopoldina Duarte Mota, estudante de psicologia que chegou ao Brasil aos 7 anos por um navio que deixou para trás as incertezas do comando ditador de António Salazar, também teve que lidar de perto com a repressão. Entre a oferta de um emprego promissor em um dos maiores hospitais de São Paulo e o risco de viver uma vida sem garantias, Leo optou pela clandestinidade e passou a andar pelas sombras, fugindo, junto com o marido, do esquema ditatorial. Foi presa, presenciou o assassinato de Alexandre Vannucchi Leme no DOI-Codi, em 1973, e inúmeras vezes teve que trocar de identidade e abandonar círculos superficiais de amizade em nome da militância.

Ao contrário de Leo, que conseguiu - na medida do possível - manter os estudos, Carlos Eduardo Ferreira de Carvalho abandonou a faculdade de economia na Universidade Federal da Bahia para não ser reconhecido e preso pelo regime que se fortalecia. Com o sonho de combater na guerrilha do Araguaia negado pelas lideranças do PCdoB, Carlos Eduardo - "filho da burguesia endinheirada de Salvador" - passou a juventude apoiando o fortalecimento da infraestrutura do partido em São Paulo sob a pele de um funcionário comum da Editora Abril.

Maurício Faria também teve que optar entre a carreira acadêmica e a dedicação à causa. Aos 21 anos, abandonou a Faculdade de Engenharia Industrial, em São Bernardo do Campo, e passou a década seguinte no limbo em que ficavam os militantes obrigados a agirem como fugitivos. Foi dirigente do Partido Comunista do Brasil e acatou sem discussão a orientação de, mesmo sob perseguição, nunca abandonar o país. "Mergulhei naquela concepção marxista-leninista de uma maneira muito radical, muito intensa. Essa concepção faz com que a gente se sinta imbuído de uma missão a cumprir. Seríamos uma minoria portadora de um destino histórico, de um futuro especial para toda a humanidade", declara Maurício no livro.

A baiana Celeste Maria de Azevedo Dantas tinha 17 anos e era secundarista quando foi identificada como uma liderança potencial pelo PCdoB. Com o passar dos anos, a jovem moradora do interior da Bahia acabou se envolvendo com a causa e passou a fazer parte da lista de procurados pela repressão. Tendo a polícia em seus calcanhares, Celeste optou por "exilar-se" em São Paulo e tornar-se operária nas grandes fábricas do ABC paulista.

Talvez com a decisão mais difícil de todos os personagens do livro - a de abandonar esposa e três filhos aos 31 anos para correr atrás de um ideal político - o jornalista Carlos Azevedo entrou para a clandestinidade já conhecido pelo poder público. Tendo trabalhado em publicações como o jornal O Estado de S. Paulo e as revistas O Cruzeiro, Quatro Rodas e Realidade, Azevedo era visto como um profissional brilhante e reconhecido com prêmios na área do jornalismo.

Intercaladas por quadros explicativos que situam o leitor no contexto mundial daqueles anos de forma extremamente didática, as histórias de Odilon, Celeste, Maurício, Leo, Azevedo e Carlos Eduardo constroem para o leitor o cenário da ditadura em cada milímetro, fazendo com que este se sinta na pele de um dos militantes que se chocava constantemente com perseguições e ameaças vindas de todos os lados. Juntos, os seis personagens costuram a trama de acontecimentos que, para muitos, hoje, podem parecer ficção, mas nunca perderão o tom de realidade para os que viveram a época e compartilharam os sentimentos de medo e angústia.

Chico Whitaker - que fora exilado político - apresenta a obra como um registro respeitável e fundamental para mostrar a atuação arriscada dos militantes que optaram por enfrentar em território nacional a brutalidade gerada pela ditadura. Admirado com a coragem dos companheiros que permaneceram no Brasil, Whitaker escreve "Testemunhos como estes que encontramos neste livro são fundamentais, sendo necessário divulgá-los ao máximo, especialmente para aqueles que são jovens demais para entender o que foi essa dura experiência e também para conservar a memória viva do que nunca mais deve acontecer".

A deputada federal recentemente reeleita Luiza Erundina também reconhece a importância da obra para reafirmar a liberdade política. "A história invisível dos que resistiram à ditadura militar e lutaram pelas liberdades democráticas na clandestinidade precisa vir à luz para que as novas gerações tomem consciência do alto preço que foi pago pela democracia que temos hoje".

De fato, "No avesso do paraíso - Vida clandestina nos tempos dos generais" é um registro único de algo que até hoje havia sido pouquíssimo destrinchado: a resistência corajosa dos que ficaram. "Não são fascínoras, mas jovens idealistas, que se dispõem a enfrentar o risco da tortura a fim de defender valores que consideram essenciais. Só esse testemunho vale o livro", comemora o ex-candidato à presidência do Brasil e socialista declarado, Plínio de Arruda Sampaio - que foi militante na Juventude Universitária Católica e presidente da mesma nos anos de chumbo.


Fonte: http://carosamigos.terra.com.br/

A PRESIDENCIA DE UM PROJETO HISTÓRICO



Passada a refrega eleitoral de 12 milhões de votos -- vantagem de Dilma sobre Serra-- 'formuladores' tucanos e jornalistas associados tentavam ansiosamente, ontem, em diferentes sessões televisivas, e hoje, nos jornais, curar cicatrizes fundas com unguentos falsos. Um deles, o mais ingenuo, endossado pelo candidato derrotado em seu pronunciamento, sugere que o robusto revés dos votos credenciou Serra a ocupar o posto de líder da oposição a Dilma Rousseff. A união oposicionista que ancora esse raciocícnio é puro miolo de pote, não existe. Sintomático foi o desconcertante antagonismo entre um discurso pretensioso, embora calcado em lugares comuns ginasianos --"estamos apenas começando'; não é um adeus, mas um até logo'-- e o gélido isolamento do derrotado, que dos dez governadores eleitos pela oposição tinha ao seu lado apenas Geraldo Alckmin. Ninguém se baldeou do estado de origem para prestigiar o 'novo líder da oposição' na sua hora mais difícil. São prenúncios de que o ex-governador de SP, a partir de agora, é serio candidato , sim, a virar pasta de atum no acerto de contas com desafetos e tubarões da coalizão demotucana. A eles Serra se impôs mais pelo uso da truculência abaixo da linha da cintura, do que pelo endosso a um projeto ou a uma vontade manifesta. Se projeto havia no caso da sua candidatura era autobiográfico. Sugestivamente, trata-se de um critério que a mídia demotucana considera legítimo, da mesma forma que manifesta estranhamento em relação à arquitetura oposta, dardejada com manifestações de ignorancia depreciativa. O estranhamento é recíproco. Dilma sempre se colocou como candidata de um projeto histórico, que tem em Lula seu principal líder e fiador. Nisso reside a sua força, assim como no oposto individualista mora o esfarelamento previsível de Serra. Se o tucano sai menor das urnas, como disse o Presidente Lula, o desafio de Dilma, a partir de agora, será consolidar as linhas de passagem que tornem transparente aquilo que de fato ela representa e seu governo deve espelhar: constituir-se em um novo patamar de aglutinação das forças e da respectiva agenda de prioridades a elas associadas nos oito anos de governo Lula. Somente esse sentido coletivo de projeto, ausente no repertório da direita nativa e de seu candidato, dará a Dilma a base necessária e a clareza de objetivos para avançar. Nesse sentido, certas lições reiteradas mais uma vez nesta campanha não podem ficar de fora do reordenamento de prioridades para os próximos anos: uma delas é a necessidade de se romper o monopólio midiático para que a democracia brasileira possa, de fato, ser o regime cujo poder emana do povo.
(Carta Maior; 01-11)